sexta-feira, 22 de julho de 2011

Especialistas revelam como será o boi do futuro


O boi ocupa muito espaço, consome muita água e tem ciclo produtivo longo, o que implica custos de produção bem mais elevados do que os do suíno e do frango, diz especialista.

Analistas do agronegócio carne têm visões diferentes sobre o futuro, mas, em geral, concordam quanto à expansão do mercado: exportações, produção e consumo interno vão crescer em conjunto. José Vicente Ferraz, da consultoria Informa Economics-FNP, que tinha a China como grande mercado consumidor futuro de carne bovina, reviu sua opinião. Ele acredita que as carnes de suínos e de frangos poderão ocupar mais espaço no país asiático que a do boi. “Até por força do hábito, a população está preferindo a carne desses outros animais”, diz. Mesmo assim, Ferraz afirma que haverá mercado para a carne bovina na China. “Afinal, há 1,3 bilhão de bocas a ser alimentadas.”

Ferraz aposta no aumento do preço da carne bovina para o consumidor e em sua inevitável elitização. “Embora a renda deva subir do ponto de vista mundial, o produto vai encarecer ainda mais. O boi ocupa muito espaço e seu ciclo produtivo é mais longo, o que implica custos. Em meu ponto de vista, essa carne deverá restringir-se a nichos. Ganha o produtor, perde o consumidor.” Para ele, exportar vai dar mais lucro, e o mercado interno deverá se nivelar aos preços internacionais.

Uma coisa é certa, segundo o analista da FNP, as exportações deverão ter seus preços elevados, enquanto o volume estará condicionado ao fim das barreiras comerciais. No longo prazo, Ferraz acha que as barreiras não se sustentam diante da necessidade de comida. Principalmente a Europa vai ter dificuldades para produzir boi. No que diz respeito ao câmbio, outra questão ligada ao futuro, na opinião de Ferraz, a desvalorização do real faz as commodities perder competividade lá fora, mas o impacto é menor no caso da carne, pois o preço da arroba está subindo.



Segundo o analista, a demanda mundial por todo tipo de alimentos tornará necessário que o Brasil dobre sua produção, caso contrário, poderá até haver instabilidade no mercado internacional.

O analista teme a persistência de um entrave gigantesco que se arrasta há décadas: “Há 30 anos repetimos isso, mas agora o contexto é diferente. Quando a produção brasileira de alimentos aumentar consideravelmente, conforme previsto, o que fazer para exportá-la se a logística do país continuar precária?”.

Segundo Gustavo Aguiar, da Scot Consultoria, de Bebedouro (SP), haverá incremento de 23% na produção brasileira anual, que hoje é de 7,8 milhões de toneladas de carne, até 2020. Também o número de cabeças abatidas, que soma atualmente 41,2 milhões, experimentará um acréscimo de 19%. Quanto ao consumo mundial, a Scot aponta ainda para um incremento de 8,6 milhões de toneladas, de 64,9 milhões para 73,6 milhões de toneladas.

Aguiar avisa, no entanto, que esses números somente serão possíveis por meio do ganho em peso de carcaça, considerado ainda baixo no Brasil. Hoje, a carcaça pesa, em média, 220 quilos, somando-se machos e fêmeas, informa ele. “O peso médio da Austrália, de 260 quilos, seria uma meta factível”, diz. Para o analista da Scot, o preço da carne realmente vai se elevar nos próximos anos. Mas faz uma ressalva: “O preço sobe, porém, internamente e nos países emergentes, como a China, é visível a melhoria da renda da população. O consumo vai aumentar”.

Outro estudioso do mercado, Miguel Cavalcanti, do BeefPoint, acrescenta uma terceira opinião. “O preço da carne vai subir em relação à de frangos e suínos, mas temos de pensar em produzir, vender e lucrar com base na qualidade, na diferenciação e no sabor. É mais caro? Sim, mas é melhor, o mercado paga mais”, acredita.

Segundo Cavalcanti, butiques de carne da cidade de São Paulo já negociam cortes nobres a R$160 o quilo, como em alguns pontos de venda mais sofisticados de Nova York. No entanto, haverá disponibilidade de cortes mais baratos. “No caso do Brasil, a pirâmide social mudou. Mais e mais gente está tendo renda. No mundo, o fenômeno é similar. Em 2014, a China terá 200 milhões de pessoas nas classes A e B, ou seja, um Brasil inteiro de gente rica. E a classe C chinesa contará com mais de 300 milhões de pessoas. Haverá espaço para todos os tipos de carne.”

Fonte: Globo Rural. Por Sebastião Nascimento

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